Falar sobre saúde do idoso no Brasil sem falar sobre desigualdade regional é contar apenas metade da história. No Nordeste, especialmente no interior, essa realidade assume contornos ainda mais severos, com municípios que convivem com uma escassez estrutural de cuidado especializado que compromete a saúde de populações inteiras. O doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, escolheu atuar exatamente nesse vazio.
A partir deste artigo, você vai entender o que essa desigualdade significa na prática para o idoso nordestino e como iniciativas locais podem ser respostas concretas a esse problema. Acompanhe!
O que a distância geográfica faz com a saúde do idoso?
No momento em que um idoso precisa percorrer 80 quilômetros para consultar um especialista, o que parece um inconveniente logístico é, na prática, uma barreira de acesso que determina se uma doença crônica será controlada ou não. A hipertensão não acompanhada evolui para AVC. O diabetes, sem orientação nutricional, progride para neuropatia. A osteoporose não diagnosticada resulta em fratura de fêmur. A distância geográfica não apenas dificulta o cuidado, ela adia diagnósticos e agrava desfechos.
Segundo a ótica do doutor Yuri Silva Portela, no sertão de Quixadá essa realidade é cotidiana. Muitos dos idosos atendidos pelo projeto nunca tinham passado por uma avaliação geriátrica antes do primeiro contato com o projeto. Esse dado, repetido com frequência nas ações mensais, revela não apenas uma lacuna assistencial, mas uma dívida social acumulada ao longo de gerações.
A questão vai além da oferta de serviços. Isso significa que, mesmo quando os serviços existem, barreiras como transporte, custo, tempo e desinformação impedem o acesso. O idoso que não sabe que tem direito a determinado atendimento ou que não consegue se deslocar até ele é um idoso que o sistema de saúde ainda não alcançou de forma efetiva.
Como o Humaniza Sertão responde a essa lacuna?
A lógica do projeto é direta: se o idoso não pode ir até o cuidado, o cuidado vai até o idoso. Uma vez por mês, uma equipe com mais de vinte profissionais voluntários de diferentes especialidades se desloca até comunidades de difícil acesso para oferecer atendimento que, em condições normais, aquela população nunca teria. Médico, fisioterapeuta, dentista, psicólogo, nutricionista, advogado, neuropsicopedagogo e barbeiro chegam juntos, num mesmo dia, com um objetivo comum.

De acordo com o doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria, a multidisciplinaridade não é um detalhe operacional. Mas o núcleo do modelo. A saúde do idoso vulnerável não se resolve com uma consulta médica isolada. Dessa forma, ela exige um olhar que contemple mobilidade, alimentação, saúde mental, direitos e dignidade ao mesmo tempo. O projeto foi construído sobre essa compreensão desde o início.
As doações de cestas básicas e fraldas que acompanham os atendimentos também integram esse modelo. Demonstrando que elas reconhecem que não é possível falar em saúde quando as necessidades mais básicas estão comprometidas. Cuidar do idoso sem garantir condições mínimas de dignidade é um cuidado que chega incompleto.
O que projetos locais ensinam sobre políticas públicas de saúde?
Iniciativas como o Humaniza Sertão são laboratórios de boas práticas que demonstram o que funciona em contextos específicos de vulnerabilidade. Os aprendizados acumulados em três anos de atuação no sertão de Quixadá têm valor que transcende o projeto e podem informar políticas públicas mais eficazes para o idoso no interior do Brasil.
Assim como destaca o doutor Yuri Silva Portela, fundador do projeto social Humaniza Sertão, a ausência de vínculos político-partidários é fundamental para que o projeto mantenha sua integridade e sua eficácia. O critério de escolha das comunidades atendidas é a necessidade, não a conveniência eleitoral. Essa independência é rara e preciosa num contexto em que muitas iniciativas sociais acabam sendo instrumentalizadas por agendas que nada têm a ver com o cuidado genuíno.
O direito ao cuidado não tem CEP
A desigualdade no acesso à saúde do idoso é um problema estrutural, mas não é um destino inevitável. Existem escolhas, iniciativas e comprometimentos que fazem a diferença dentro das limitações existentes. O Humaniza Sertão é uma dessas escolhas em ação.
O doutor Yuri Silva Portela construiu algo que prova que é possível levar excelência e humanização a qualquer lugar, desde que haja vontade real. O direito ao cuidado de qualidade não deveria depender de onde o idoso nasceu. E, enquanto esse direito ainda não é universal na prática, projetos como esse existem para encurtar essa distância.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

